O uso excessivo de telas em crianças menores de 10 anos: o que eu, Psicóloga infantil, vejo no consultório

Toda semana, pelo menos uma família chega até mim com a mesma dúvida, só que com palavras diferentes: “Doutora, será que meu filho está muito tempo no celular?”, “Ela chora demais quando eu tiro o tablet”, “Ele só come vendo desenho, isso é normal?”.

Eu sou Leticia Martins, Psicóloga infantil (CRP 06/233943), atendo em São Bernardo do Campo e também online, e trabalho principalmente com neurodesenvolvimento infantil, avaliação neuropsicológica e orientação parental. E preciso ser honesta com você: o uso excessivo de telas em crianças menores de 10 anos é, hoje, um dos temas que mais aparece nos meus atendimentos,e um dos que mais gera culpa nos pais.

Por isso decidi escrever este artigo. Não para te dizer que tela é vilã, porque não é bem assim. Mas para te ajudar a entender, com base no que estudo e no que vejo na prática clínica, quando o uso deixa de ser apenas “mais um hábito da infância moderna” e passa a interferir no desenvolvimento da criança.

O que é considerado uso excessivo de telas na infância?

Não existe um número mágico de minutos que sirva para toda criança. O que a literatura científica e os órgãos de saúde costumam observar é a função que a tela exerce no dia a dia da criança, e não apenas o tempo de exposição isolado.

Em geral, entendo como uso excessivo de telas quando ela:

  • substitui brincadeiras, conversas ou momentos de interação social;
  • é usada como única forma de acalmar birras, ansiedade ou tédio;
  • interfere na qualidade do sono ou no apetite;
  • provoca irritabilidade intensa quando é interrompida;
  • ocupa um tempo desproporcional em relação a outras atividades importantes para a idade, como movimento livre, faz de conta e convívio com outras crianças.

Por que isso preocupa tanto no desenvolvimento infantil?

Cada faixa etária tem tarefas de desenvolvimento que precisam ser exercitadas na prática, no corpo, na interação real. Quando a tela ocupa um espaço desproporcional nessa rotina, algumas áreas podem ficar menos estimuladas.

1. Linguagem e comunicação

Crianças aprendem a falar principalmente na troca com outras pessoas — no olho no olho, na espera da resposta, na correção natural que um adulto faz durante uma conversa. Uma tela, mesmo educativa, não devolve esse tipo de troca. Tenho visto, na prática clínica, atrasos de linguagem associados a rotinas com uso intenso e solitário de telas, especialmente nos primeiros anos.

2. Regulação emocional

Quando o tablet vira a principal ferramenta para acalmar o choro ou a frustração, a criança perde oportunidades de aprender, com a ajuda de um adulto, a atravessar essas emoções difíceis. Isso pode aparecer mais tarde como dificuldade de lidar com “não”, baixa tolerância à frustração ou birras mais intensas.

3. Sono

A luz das telas e a estimulação constante de jogos e vídeos podem atrapalhar o processo natural de relaxamento antes de dormir. Muitas famílias que atendo relatam melhora significativa na qualidade do sono só ao ajustar o uso de telas no período da noite.

4. Atenção e brincar

O brincar livre — aquele sem regras prontas, sem estímulo audiovisual constante — é uma das principais ferramentas de desenvolvimento cognitivo, social e emocional da infância. Quando esse espaço é ocupado majoritariamente por telas, a criança tem menos chances de exercitar a criatividade, a paciência e a capacidade de se manter em uma atividade sem estímulo externo constante.

Sinais de alerta que costumo observar na prática clínica

Com base na minha experiência clínica acompanhando famílias, alguns sinais costumam merecer atenção — sempre lembrando que uma avaliação individual, feita presencialmente, é o único caminho para uma conclusão sobre o caso específico do seu filho:

  • birras desproporcionais quando a tela é retirada;
  • recusa alimentar sem o estímulo de vídeos;
  • dificuldade de brincar sozinho com brinquedos “parados” (sem tela);
  • atraso perceptível na fala em comparação a outras crianças da mesma idade;
  • alterações no padrão de sono;
  • isolamento em relação a brincadeiras com outras crianças.

Nenhum desses pontos, isoladamente, define um diagnóstico. Eles são convites para observar com mais cuidado e, se fizer sentido, buscar uma avaliação especializada.

O que eu oriento às famílias que atendo

Aqui vai algo que sempre repito nas consultas: o objetivo não é o “tela zero”, e sim uma relação mais consciente e equilibrada com esse recurso, ajustada à idade e à rotina de cada família. Alguns caminhos que costumo trabalhar na orientação parental:

  • Definir combinados claros, com início e fim visíveis para a criança (um timer, por exemplo), em vez de retiradas repentinas.
  • Priorizar conteúdo de qualidade e, sempre que possível, assistir junto — comentando, perguntando, participando.
  • Reservar momentos “sem tela” fixos na rotina, como refeições e o período antes de dormir.
  • Oferecer alternativas concretas de brincar antes de recorrer à tela em momentos de tédio ou espera.
  • Observar o próprio uso de tela dos adultos da casa — as crianças aprendem muito mais pelo exemplo do que pela regra falada.

Pequenos ajustes consistentes costumam trazer mais resultado do que mudanças drásticas e difíceis de manter.

Quando vale a pena procurar ajuda profissional

Se você percebe que o uso de telas está associado a atrasos de linguagem, dificuldades importantes de regulação emocional, prejuízo no sono ou na alimentação, ou se simplesmente sente que perdeu o controle sobre essa rotina em casa, vale a pena conversar com um profissional. Uma avaliação psicológica pode ajudar a entender o que está por trás desse comportamento, porque, muitas vezes, a tela é só a ponta visível de uma dificuldade que pode estar em outro lugar: ansiedade, dificuldade de regulação sensorial, ou mesmo uma sobrecarga da rotina familiar.

Para fechar

Eu, como mãe… ah, não, aqui eu falo como psicóloga mesmo — mas posso te dizer que entendo a culpa que esse assunto carrega. Vivemos em um momento histórico em que as telas fazem parte da vida de todo mundo, adultos inclusive. O convite que faço às famílias que acompanho não é o de eliminar a tecnologia, e sim o de olhar, com curiosidade e sem julgamento, para o espaço que ela está ocupando na infância dos seus filhos.

Se este texto te fez pensar em algo específico da rotina da sua casa, eu adoraria conversar com você. Você pode marcar uma consulta comigo, presencial em São Bernardo do Campo ou online, ou me acompanhar no Instagram @psi.llemartins, onde compartilho conteúdo sobre desenvolvimento infantil e orientação parental praticamente todos os dias.

Sobre a autora

Psicóloga Infantil ABC

Sou Psicóloga Infantil (CRP 06/233943) e realizo atendimento presencial em São Bernardo do Campo (ABC). Meu trabalho é acolher crianças e orientar famílias, oferecendo um espaço seguro para o desenvolvimento emocional infantil, sempre com base em evidências científicas e em um atendimento humanizado.

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